
Amiguinhos, confiram abaixo nova edição da aclamada coluna Grandes Clássicos do Cinema, que pretende, através de um olhar crítico e semiótico, ressaltar todas as minúcias de várias obras que foram "sucesso" de bilheteria e crítica. O objetivo deste trabalho é dar um "upgrade" cultural em nossos milhões de leitores, dessa forma contribuindo para o fim da alienação imposta pelo cinema holywoodiano. E o segundo filme analisado é...
O Demolidor (Demolition Man) - 1993
Direção: Marco BrambillaElenco: Silvester Stallone, Wesley Snipes, Sandra Bullock, Nigel Hawthome, Benjamin Bratt e Rob Schneider
Roteiro: Peter M. Lenkov e Robert Reneau
Sinopse: Em 1996, um perigoso bandido é preso por um policial, mas, no julgamento, ambos são condenados - o bandido pelas atrocidades que cometara, e o policial, pelo excesso de violência usada - a ficarem congelados por um período de 70 anos. Quando, porém, o bandido consegue escapar, o policial também é descongelado, pois é o único homem no futuro capaz de capturá-lo novamente.
O Demolidor pode ser considerado precursor de uma das grandes escolas do cinema mundial, chamada por Bob Bowfinger, aclamado diretor, de cinema nouveau. Inspirado na temática de obras como 2001: Uma Odisséia no Espaço e Laranja Mecânica, do genial repertório Kubrickiano, o filme de Marco Brambilla retoma a discussão acerca da incerteza quanto ao futuro, as angústias e especulações a respeito das conseqüências dos atos dos homens e seu impacto nas eras vindouras. Outras questões de igual relevância são introduzidas de modo sutil ao longo da película, resultando em incômodo, reflexão, e fornecendo insumos para debates sobre diversas preocupações contemporâneas.
A história nos apresenta John Spartan (interpretado por um Stallone inspirado), que, apesar de ser um dedicado policial a serviço de sua cidade, Los Angeles, é conhecido por seus métodos pouco ortodoxos de coerção. Somos introduzidos aos personagens no momento em que Spartan se vê envolvido em uma perseguição ao perigoso ladrão e homicida Simon Phoenix - uma das mais sensíveis e profundas interpretações de Wesley Snipes. Utilizando todo seu conhecimento bélico, o policial consegue capturar Phoenix, entretanto, sua missão provoca efeitos colaterais. Diversos civis são mortos durante a operação empreendida por Spartan, que é considerado culpado pelas baixas.Tanto Spartan quanto Phoenix são condenados a uma prisão criogênica, devendo permanecer congelados durante 70 anos. Entretanto, a trama passa por uma reviravolta quando Phoenix consegue fugir de sua crioprisão, como chamada no filme, e passa a cometer atrocidades na Los Angeles do futuro. A única solução capaz de contê-lo acaba sendo a libertação de John Spartan, considerado o único homem daquela realidade com conhecimento e recursos capazes de capturar Phoenix.
A ação se desenvolve naquilo que parece ser a concepção do diretor de como será o mundo dentro de algumas décadas, e a observação dessa realidade idealizada nos permite identificar diversas questões e discursos articulados enquanto os acontecimentos se processam. Inicialmente, a crítica ao ufanismo dos norte-americano, bem como à sua xenofobia salta aos olhos. Na Los Angeles do futuro, chamada de San Angeles, os estrangeiros são retratados como serviçais, ocupando menores cargos, voltados para a garantia do bem-estar e do conforto dos cidadãos americanos.
Um exemplo do gritante preconceito que caracteriza essa sociedade é a evidente dificuldade de inserção dos imigrantes mexicanos no mercado de trabalho. A eles não é permitida outra posição, senão a de funcionários da única cadeia de restaurantes da cidade: o Taco Bell. O filme protesta contra essa situação, e a crítica atinge seu clímax quando John Spartan se recusa a fazer suas refeições nesses restaurantes, preferindo pratos a base de carne de ratos, servidos no subterrâneo da cidade.


Outra questão levantada por Brambilla em O Demolidor é a racial. Em contraposição ao racismo, moléstia que assola o mundo contemporâneo, o diretor provoca polêmica ao buscar a descaracterização do vilão como o típico afro-americano injustiçado, sem oportunidades, cuja única saída é o mundo do crime. O bandido Simon Phoenix é retratado como um homem requintado, com vastos conhecimentos de tecnologia. Além disso, Brambilla introduz com maestria a reflexão sobre a dualidade do ser humano enquanto vilão, apresentando-nos um personagem negro com os cabelos tingidos de loiro. Impressiona a sutileza com que o autor nos sugere que tanto arianos quanto negros podem enveredar pelo mundo do crime.
A supressão da libido como forma de elevação do homem ao topo da escala evolutiva também é tratada em O Demolidor, ilustrada pela cena em que Lenina e Spartan experimentam o contato sexual virtual, sem troca de fluidos - a procriação é feita através da fertilização in vitro, para que o crescimento populacional desenfreado seja evitado, tornando também possível a seleção genética dos fetos. É a manifestação da sensibilidade de Brambilla ao abordar tópicos tão delicados e controversos como a sexualidade e o controle populacional.
O filme ainda nos reserva algo surpreendente: sua referência a obras clássicas da literatura universal. Somos brindados com a presença da personagem Lenina Huxley (Sandra Bullock, impecável), que carrega o mesmo nome da célebre personagem de Admirável Mundo Novo e o mesmo sobrenome do autor desse livro, Aldous Huxley.
Por fim, é manifestado no filme o lado enigmático do diretor Marco Brambilla. Num futuro onde todos os restaurantes são mexicanos, bandidos refletem a dialética entre bem e mal, certo e errado, e o ato sexual é virtual, há espaço também para indagações relacionadas à higiene. O policial John Spartan é apresentado a um peculiar método de assepsia pós-defecativa: o uso de três conchas. Entretanto, a genialidade sem limites de Brambilla nos deixa com um enigma por resolver. Embora fique latente o fato de que as conchas devem ser utilizadas na higienização após a evacuação, o modo como isso deve ser feito não é descrito, nos remetendo a outro grande enigma literário: Dom Casmurro, obra escrita por Machado de Assis à altura de O Demolidor, também deixa em aberto o debate sobre a infidelidade de Capitolina.
O Demolidor é um filme completo. Suscita discussões, reflexões, denuncia mazelas sociais, e nos dá espaço para especulações sobre o inquietante enigma das três conchas. Uma obra prima.
Nota FurrECA: 10/10











