
Seu semblante entristecido pode ser percebido com facilidade. Enquanto vaga cabisbaixo pelos corredores do CJE, Alexandre do Audiovisual lamenta a perda de sua tão querida sala, onde exercia a técnica milenar e secreta da disponibilidade plena, aprendida após um período de treinamento árduo com os maiores mestres da área, no Museu de Ciências da USP.
A sala de Alexandre era praticamente um patrimônio tombado do CJE quando teve sua porta cimentada para a construção de uma rampa para cadeirantes no estúdio de TV. "Aquela sala era meu aconchego, meu cafofo", lamenta do Audiovisual (esse é o sobrenome dele, mesmo).
De fato, nosso fã de AC/DC faforito viveu grande parte de sua vida em seu reduto, escutando sua música preferida, que, como todos sabem, é Back in Black da banda supracitada, enquanto fazia novos amigos no orkut, seguia alguns mais antigos no twitter e, de vez em quando, trabalhava com audiovisual.
Mas quem é Alexandre do Audiovisual? Que figura é essa, que, com seus 100% de disponibilidade, tanto colabora com o andamento do nosso departamento?
Nascido sob o nome de Alexandre Munhoz Vieira, nosso herói desde cedo foi demonstrando suas aptidões para o audiovisual. Ele conta que não podia ver uma ilha de edição que já ia fuçando e mexendo. "Um dia, quando eu ainda usava fraldas, minha mãe teve que sair me arrastando, porque eu me enfiei entre os antigos equipamentos do meu pai e comecei a planejar um Jornal da FFLCH... e já fazia melhor do que ele é hoje", ri pimpão.
Alexandre teve uma infância sofrida. Seu pai, senhor Roberto o abandonou antes que pudesse dar o seu primeiro choro para poder seguir com sua carreira bem sucedida de técnico em audiovisual. Sua mãe, revoltada, temendo que seu adorado pimpolho seguisse os passos de seu ex-amante decretou que Alexandre nunca, em hipótese alguma, chegaria perto de equipamentos de audiovisual.

O resultado desta proibição foi óbvio. Um jovem que cresce sem uma figura paterna e descobre seus talentos, desejos e ambições e vê-se podado e sabotado pela mãe acaba ficando revoltado. Foi então que Alexandre, até então fã nº1 de Balão Mágico, descobriu o rock'n'roll e se apaixonou por AC/DC. Logo entrou no mundo das drogas. Começou com álcool e maconha e foi, progressivamente, passando para as drogas mais pesadas, como o crack, a heroína e Cansei de Ser Sexy.
Um dia ele percebeu. Ele não podia deixar que sua mãe ditasse o rumo de sua vida e que o impedisse de ser quem de fato era: um gênio do audiovisual. Em protesto, largou a casa de sua mãe e foi em busca de seu pai, Roberto do Audiovisual, que, ao ver o rosto de Alexandre e enxergar nele o mesmo talento que por Deus lhe foi concedido e as possibilidades que o futuro lhe reservava, percebeu seu erro e o acolheu como um filho. "Foi um momento emocionante da minha vida. Enfim, percebi que eu podia ser eu mesmo", recorda com os olhos marejados.
Nosso herói largou seu antigo sobrenome, que representava a última barreira de ligação com sua opressora mãe, para homenagear seu pai: Alexandre Munhoz Vieira morria para dar vida a Alexandre do Audiovisual, esta figura carismática da qual tratamos.
Sua vida com seu pai, no entanto, não era um mar de rosas. O relacionamento com Seo Roberto não poderia ser melhor, mas havia um grande problema: seu meio-irmão Sílvio do Audiovisual, nascido alguns anos depois da fuga de seu genitor. Sílvio nunca aceitou muito bem Alexandre e sempre teve inveja de seus talentos audiovisuais, pois, mesmo com seu sobrenome, nunca conseguiu grandes façanhas. "O Sílvio era f... Não me deixava em paz em momento algum. Ele sabia que não tinha tanta capacidade quanto eu e ficava me infernizando. Acho que ele nunca aceitou ficar na minha sombra", reclama de forma irritada Alexandre.

A inveja não o impediu de continuar a busca pela consagração. Alexandre fez um curso técnico de Audiovisual na Escola Técnica Estadual Professor Camargo Aranha, onde se formou com louvor. O curso foi extinto após a cerimônia de entrega de diplomas, pois os professores alegavam estar embasbacados com o futuro e a capacidade de Alexandre do Audiovisual e que nenhum outro aluno chegaria aos seus pés.
Chegou, então, à Faculdade USP, estagiou no Museu de Ciências e conseguiu graduar-se com sucesso. O período que passou dentro FUSP, no entanto, decidiria o rumo de sua vida, pois conheceria alguém decidido a mudá-la: Luiz Fernando Santoro.
Alexandre encontrara Santoro nos corredores do CTR. "Ele era um garoto baixinho, que parecia amedrontado com a vida universitária e eu o ajudei. Ficamos bons amigos", afirma Alexandre, que até o momento não sabia que o que o futuro lhe reservava.
Novamente Alexandre impressionou docentes com seu talento. O curso de Rádio e TV teve seu nome mudado, fazendo menção a um dos melhores alunos da história do CTR. O curso passava a se chamar "Audiovisual".
O destino, no entanto, pregou uma peça em nosso virtuoso companheiro de departamento. De tanto ouvir Back In Black, teve alguns problemas no ouvido, sendo necessária uma cirurgia. Quando deixou o hospital, havia apenas mais uma vaga para o mestrado.
Alexandre conversou com Santoro, que também desejava mestrar-se em audiovisual. Porém, por ter menos qualidades, sabia que competir com nosso amigo cabeludo pela vaga seria impossível. E foi neste ponto que ocorreu a reviravolta na vida de Alex do Audiovisual.

Certo de que sua vaga estava garantida, Alexandre foi falar com Tupã Gomes Correa, responsável pela seleção dos mestrandos. Quando chegou, foi informado de que todas as vagas já haviam sido preenchidas.
Alexandre ficou perplexo. "Quem poderia ter feito isso?", pensava inconsolável. Aquela vaga já tinha seu nome.
Foi quando Alexandre viu uma figura baixinha e gordinha andando com as pernas arqueadas, como se estivesse com muita dor. Ele não acreditava no que via: seu melhor amigo o esfaqueava pelas costas.
O gordinho, então, percebendo a figura alta, magra, de cabelos compridos e vestida de preto, disse: "Alexantre, sua pipinha! O munto é tos espertos! Popeou, tançou. Toeu, mas faleu a pena. Meu futuro tá quasse carantido, acora"
Sem perceber a ironia de ser chamado de "bibinha" por alguém que tinha acabado de fazer o que Santoro havia feito, Alexandre entrou em depressão. Desempregado, não conseguiu mestrar-se em uma instituição particular. Triste, não conseguiu vaga em uma pública. "Era o fim pra mim", disse Alexandre.
Chegara ao fundo do poço, onde vivera por um longo tempo. Voltara ao mundo das drogas, mas o público já conhece as histórias de viciados, por isso não nos prolongaremos nesta fase de sua vida. Basta dizer que esta não foi diferente.
Alexandre, então, buscou o caminho para a salvação na religião. Como diz a música, levantou, sacudiu a poeira e deu a volta por cima.
Depois de tanto tempo perdido no mundo, Alexandre buscou voltar ao que ele mais sabia fazer, mas não tinha mais tantas ambições. Estudou, estudou e conseguiu passar em um concurso público para trabalhar no último lugar onde ele havia sido feliz: a Escola de Comunicação de Artes. Seu meio-irmão Silvio do Audiovisual, ciumento e ansioso por agradar seu pai, também conseguiu vaga como técnico no Serviço de Comunicação Social da FFLCH, onde, devido à falta de talento, faz as maiores atrocidades com a câmera que se pode imaginar.
O destino, no entanto, pegaria em seu pé outra vez. Quando abria a porta de sua nova sala, onde auxiliaria alunos nas aulas de Radio e Telejornalismo, ouviu uma voz familiar: "Alexantre, sua pipinha! Que sautates te focê!".
Seu sangue ferveu. Sua face avermelhou-se. Aquela voz... Não podia ser...
Mas era. Santoro havia conseguido doutorar-se e ocupava o cargo de professor de telejornalismo na ECA. Com suas trapaças, reunia fama, dinheiro e fortuna. Alexandre, em contraponto, tinha apenas uma camiseta surrada do AC/DC, uma calça jeans preta e o dinheiro do busão. Tudo por culpa daquele gordo, que um dia fingiu ser seu amigo.

Mas Alexantre... ops... Alexandre decidiu que não sofreria novamente por causa daquele troca-letras infeliz. Seguiria sua vida normalmente, trabalharia duro para ganhar o pão de cada dia. O carma lhe recompensaria.
Mas quem disse que o destino gosta de Alexandre? Santoro não o permitia esquecer a rasteira que um dia levou. "Pipinha... AC/TC é mússica te fiatinho, sapia?", dizia o sacana com cabelos acaju, enquanto dava petelecos nas orelhas do concentrado técnico de audiovisual. Além disso, arrastava Alexandre para eventos como o Prêmio Melhores do Semestre, onde era obrigado a pagar micos inimagináveis. Tratava-o como um escravo, perguntando toda hora se ele sabia como "fasser orkut escontito".
Alexandre foi aos poucos perdendo o gosto pelo trabalho. Começou a passar o dia no orkut e twitter, como dito no início do texto. Luiz Fernando Santoro não perdoou: passou a falar para todos os seus alunos para irem importuná-lo, espalhando os famigerados 100% de disponibilidade por todo o departamento, o que muito irritava nosso sofrido funcionário público. "Aquele gordo me passava trabalho como se eu não tivesse mais nada pra fazer", reclama revoltado.
Um triste dia, depois de chegarem os rumores da oneração de Alexandre, José Luiz Proença inventou uma reforma no departamento como pretexto para dar fim ao emprego do técnico em audiovisual mais querido da Faculdade USP. Pintaram-se as paredes, construiu-se uma rampa na entrada do CJE para dar credibilidade à reforma, mas o verdadeiro interesse era a sala de Alexandre.
Com a rampa que leva ao estúdio de TV, Alexandre tornou-se um sem-teto. Sua sala, assim como faz a Professora Doutora Alice Mitika Koshiyama, servia também como um quarto. "Não sabia mais o que fazer... minha vida, mais uma vez desmoronava".
Atualmente Alexandre do Audiovisual não trabalha mais com audiovisual. Não pode mais fazer o que gosta, mas tem que ganhar o seu sustento de alguma forma. E, não sabendo o que fazer, teve novamente de se sujeitar a uma humilhação.
Lá estava o magro fã de AC/DC comendo um pão com manteiga quando Santoro, com um ar de superioridade, disse:

"Seu fiatinho... Eu estafa com tinheiro sopranto e teciti aprir uma loxa. É uma loxa te roupas para cortinhos... Não que eu sexa cortinho, mas tenho muitos amicos que são. Xe suis trop sexy pour ma chemise... É a Santorini. Então, Alexantre... Não quer uma faca te faxineiro? Eu sei que focê tá precisanto."
Alexandre aceitou. "Preciso me alimentar. É só uma fase. Algum dia tornarei a ter meu talento reconhecido mundialmente, ganharei muito dinheiro e poderei viver com dignidade". A única coisa que ainda o consola são seus discos do AC/DC
Ele lamenta profundamente a vida de sonhos desperdiçados e despedaçados. Sua vida não é o que poderia ter sido. Alexandre acredita, no entanto, que seu pai, Seo Roberto do Audiovisual, teria orgulho de quem se tornou. "Não tenho muito dinheiro, mas sou honesto. Diferentemente daquele que roubou tudo que poderia ter sido meu."
Até o fechamento desta matéria Alexandre do Audiovisual ainda não havia se suicidado. A Equipe FurrECA continuará acompanhando o caso.